sábado, 19 de setembro de 2009

Correio do Sul: mil versões de uma paixão

A história de Cachoeiro de Itapemirim (ES) não seria honestamente contada sem passar pelo Correio do Sul. Estou aqui a resgatar um pouco da trajetória do bissemanário impresso, de linha editorial marcadamente voltada à literatura.

Ao longo do século XX, o Correio abriu amplo espaço para a produção literária de Cachoeiro, surgindo dessa opção editorial nomes consagrados na literatura brasileira: os irmãos Rubem e Newton Braga, que despontaram a partir da abertura deste jornal por seus irmãos mais velhos, Armando e Jerônimo Braga.

Dos mais longevos jornais impressos de Cachoeiro, o Correio do Sul foi marcado por uma posição de vanguarda cultural até seus últimos exemplares, datados de 2000. Nascido em 1928, no mesmo período de fundação de grandes jornais do país, como O Globo e A Gazeta, surgiu num período em que Cachoeiro, apesar da crise da cafeicultura tê-lo destronado da centralidade política capixaba, gozava de alto prestígio como pólo cultural, sendo reconhecido como “exportador de talentos”.

O Correio passou por vários donos e foi influenciado por diversos matizes políticos, mas ganhou identidade com a chefia de redação de Newton Braga, poeta que imprimiu ao jornal a marca dos cronistas e escritores locais. Foi no Correio do Sul que Newton lançou a ideia de criar o “Dia da Cachoeiro”, evento cívico-cultural até hoje existente na cidade e marcado pela afetividade, homenagens e reencontros de cachoeirenses ausentes e presentes.

Além das diversas personalidades locais que trabalharam ou colaboraram voluntariamente com o Correio do Sul, ainda é possível encontrar um acervo fotográfico com edições do jornal guardadas ao longo de décadas. O material está sob a guarda do Instituto Newton Braga, inclusive a página na qual Rubem Braga escreveu suas primeiras suas crônicas no Correio, na coluna denominada Correio Maratimba.

Registro

Não consta, do conhecimento deste que escreve, nenhum registro histórico escrito que conte a trajetória do Correio do Sul. O periódico deixou de circular, mas, além de referências de autores em livros, nada há posto que relembre sua história e importância no contexto jornalístico de Cachoeiro de Itapemirim.

Por meio da análise do acervo preservado do Correio (e isso é um fato raro em Cachoeiro, onde muito se perdeu e há pouco apreço pela memória, haja visto o patrimônio arquitetônico sendo deteriorado ao longo dos anos) é possível perceber de que forma a sociedade lidava com a informação, entender a evolução do conceito de informação, compreendendo o que era “notícia” naquelas épocas e o que se concebe como “notícia” hoje. Como o jornal nunca foi diário, vale considerar, também, o tempo de consumo e de produção da informação, já que, hoje, não há mais jornais bissemanários.

A mesma análise permite comparar o Correio do Sul com jornais impressos hoje em circulação no município, para observar o que se evoluiu em termos de conceito de jornalismo, de apuração e de produção de informação, por exemplo. O Correio foi uma espécie de berço da formação de escritores.

E essa presença da crônica, da expressão da opinião, se mantém nos jornais de hoje, mas não com a mesma qualidade - naquela época, havia textos com mais valor estético, literário, e como expressão de opinião, avaliam críticos locais. Hoje, qualquer cidadão expressa opinião em jornais, sem um critério muito rigoroso. Se isso é bom ou ruim, não se sabe, mas o fato é que acaba servindo com uma espécie de calidoscópio da opinião popular.

História da imprensa

Enveredar pelas páginas do Correio do Sul é resgatar a história da imprensa em Cachoeiro de Itapemirim. A produção jornalística do Correio é janela para observar o panorama de costumes e valores, da evolução política da cidade de 1930 a 2000. É janela para revelar a perspectiva da evolução da linguagem jornalística, observando registros de eventos municipais e acontecimentos políticos e econômicos registrados nas coberturas do veículo.

Aliás, lembrar do Correio do Sul exige propor uma forma de esse acervo se tornar mais acessível às pessoas, já que está em mãos particulares porque Cachoeiro não tem um espaço de memória. Falta uma política pública de preservação da memória local, de valorização da história. E a importância da memória é imprescindível na constituição da própria identidade, ainda mais em Cachoeiro, onde o bairrismo é um dos pilares da autorreferência proclamada.
PS: Fotos são de divulgação. Na ordem: 1) vista do Pico do Itabira, cartão-posta da cidade; 2) Newton Braga na Festa de Cachoeiro em 1951; 3) Ponte de Ferro; e 4) Newton de perfil

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Nise: mergulho na loucura, voo de liberdade

Por Rondinelli Tomazelli

Pouco me resta de argumentos, até por estar longe da crítica renomada dos cadernos de cultura “Prosa e Verso” e “Ela”, entre tantos outros espaços consagrados que se abriram a divulgar Nise - Arqueóloga dos Mares, lançada em 2008 pelo jornalista Bernardo Carneiro Horta.

A biografia, ou melhor, a perturbadora série de biografemas, revela a intensidade humana, profisisonal e intelectual de Nise da Silveira, a psiquiatra que revolucionou a psiquiatria no século XX e viveu 93 anos de pura rebeldia com causa. Sobre o valor documental e artístico da obra Martha Pires Ferreira já disse tudo no prefácio do livro. Já falei disso antes. De toda forma, registro, agora, as impressões de alguém que leu a obra e também escolheu a estrada marginal para atravessar a vida.

Presumo não ter sido fácil para Bernardo Carneiro Horta compilar os fragmentos de uma complexa Nise nas 400 páginas do livro. Sim, escrever é cortar palavras! - ensinava Drummond -, mas quero contestá-lo se o assunto é Nise... esta que é uma infinitude de enigmas, diamante a lapidar – e sobre a qual nem um milhão de páginas descreveriam sua total complexidade e plenitude diante da vida.

Desde a primeira visita ao Museu das Imagens do Inconsciente, a curiosidade intelectual e humana despertada por Nise perpassaria a trajetória de Bernardo Carneiro Horta. O autor, tal qual Newton Braga (irmão de Rubem Braga), deixou-se levar pela imensidão da alma, resolveu desprendê-la da materialidade e foi atrás da senhora das imagens, mergulhou no universo dela, anotou, persistiu... e nasceu Arqueóloga!

O livro faz jus à sua protagonista: assim como Bernardo (entrevistado na foto ao lado) publicou a 1ª edição sem o apoio de uma grande legenda editorial, Nise também se pautou pelo caráter outsider, underground, revolucionário. E Horta atende aos desejos da Drª, como era chamada por amigos, colegas e discípulos: que o saber se difunda, e não se prenda! Que seus conceitos e o modo como pôs em prática os conceitos de Jung ficassem registrados para a posteridade, nem que seja compreendido no ano 4 mil de nossa era! Lá estava Nise: olhando para o futuro (por isso sabia História, mas não se lembrada de datas?)
Mergulho no inconsciente

Não me sinto competente para atribuir delitos estéticos ou pecados editoriais à Arqueóloga dos Mares. Obra feita, o livro é ríspido e provocante, amável e emotivo, tal qual a dama do inconsciente. Não se preocupa em agradar, mas em dar o recado - como Nise preconizava. Até nisso Arqueóloga reflete Nise, tão intimamente representada pelos biografemas de Barthes, a capturar o sentido da vida pelas frestas da alma.

A Drª permitiu que Bernardo Carneiro Horta se aproximasse talvez por isso: por ter horror às pessoas 100% ajuizadas, por condenar a empáfia e preferir os que fogem à rasa essência da normalidade. Ela se compatibilizava com quem tem a capacidade de se indignar, de propor o novo, de se mostrar feito de outro barro. Tal qual a linguagem não-linear do inconsciente, escrever sobre Nise não é racional, não é verbal: é um “Sim” ao convite que a psiquiatra torpedeou nas almas mais latentes, questionadoras.

Arqueóloga é uma viagem, com passagem de volta, aos inumeráveis estados do ser, ao universo do além-consciente estilhaçado pela loucura, pela cisão com a realidade. Uma imersão nos conceitos que revolucionaram a psiquiatria no século XIX, lançados por Jung e postos em prática por Nise. O livro, em linguagem didática e sem a casca intelectualóide, esclarece a emoção de lidar e o afeto catalisador como instrumentos de mergulho no inconsciente, de recuperação e ressocialização dos esquizofrênicos.

Doença, coragem, solidão

Há que se observar que a paixão de Nise pelos loucos não significa que a esquizofrenia é uma condição superior, um “Nirvana” às avessas, que vá além da mera realidade dos “normais”. Ao contrário: é uma doença aterradora, de graus diferenciados, com cura por vezes jamais encontrada nas profundezas do mundo interno. É doença que traz sofrimento, inquietação.

Talvez por isso o mérito do Museu das Imagens do Inconsciente seja o de não fazer, dos doidos, grandes artistas, mas descobrir a forma de trazê-los à realidade pela expressão plástica, pelo estudo das imagens do inconsciente. Está aí um dos atos porretas da Drª: peitar Mário Pedrosa e tantos outros e não fazer das obras do atelier de pintura um subproduto comercial da loucura. Era, mais uma vez, a revolucionária Nise, escapando dos estereótipos, deixando os algozes com o queixo apoiado na palma da mão. Surpreendente, sempre. A seu modo, a alagoana foi uma cangaceira.

Mas a grande obra da doutora não a blindou de sofrimentos. Renunciou ao luxo, sofreu nas mãos de empregados picaretas, comeu comida rala quando idosa, passou fome no Curvelo, padeceu de solidão existencial, foi subserviente ao marido. Nada que lhe fizesse, entretanto, perder a originalidade e a comicidade, tal qual no momento em que seu gato Léo lhe comunicou que não daria entrevista alguma – já fora um absurdo divulgar suas cartas à gata amada. Difícil esquecer a relação de amor com os animais: “sou pior do que um cachorro, pois eles sabem perdoar. Eu estou longe disso”, sentenciou.

Nise sofreu de dor, de incompreensão; não foi prestigiada pela grã-psiquiatria. Pagou o preço de estar na vanguarda. Sofreu a plenitude da alma, a condição sabida de não ser normal como tantos outros. Persona forte, non grata noutras vezes. E filhos, por quê não tê-los? Eis outro mistério que levou para “a outra galáxia”.

As faces de Caralâmpia

Nise - libera, sempre libera, como na ária de La Traviata, de Verdi. A Caralâmpia inquieta e observadora do professor Faustino; a Nise transformada pela prisão, experiência que marcou sua vida e a fez trilhar o caminho que revolucionou a psiquiatria: recusou-se a aplicar eletrochoque. Livre, desde a tenra idade, quando seu avô lhe recitava o abolicionista Castro Alves, quando ela lia Spinoza ainda adolescente, quando aspirava o cheiro de tinta do jornal do tio, metida na redação.

Mulher que quebrou paradigmas ao juntar-se, ainda menor de idade, ao primo Mário - consideravam o casamento “uma mera formalidade burguesa”. Também venceria preconceitos ao ser a primeira mulher da turma de medicina, a partir sozinha ao Rio de Janeiro. À frente do seu tempo, professou: “Liberdade, a palavra que mais gosto de ouvir”.

É essa a mensagem das entrelinhas de Arqueóloga, uma obra leve, mas densa; enigmática, mas reveladora. Nise e Newton Braga: donos de almas gigantes, presas em corpos franzinos, mas com “antenas” de sensibilidade para captar as misérias do mundo e morrer de dores que não foram suas.

Profeta da verdade, crítica e valente, a senhora das imagens nasceu para ser diferente, para transgredir regras, para dar o passo à frente. Por isso portava o anel de Salomão, o talismã do mistério. Exemplo de vida, Nise é a visão encarnada de que, na vida, é preciso ter tutano para fazer certas coisas. E Bernardo seguiu à risca a lição da mestra: teve tutano e escreveu, para a posteridade, Nise – Arqueóloga dos Mares. Aos leitores, bom mergulho!

A alma, segundo Newton Braga

Rondinelli Tomazelli

Acorde e encare o espelho: qual o tamanho da sua alma? Em “Carta para Deus”, publicada no Correio do Sul, Newton Braga questiona o porquê de o Criador ter dado a ele uma alma tão grande, gigante para caber num corpo tão pequeno, presa à materialidade.

A alma lhe transbordava os limites do corpo. Ultrapassava a rotina rasa de cada dia. Saltava as fronteiras da trilogia trabalho, ganho e consumo. E, assim, a angústia da existência seguia no encalço de Newton, doía-lhe o peito, fazia-o arfar. Eis que veio a poesia preencher o espaço que o atordoava vida afora. Veio Isabel, a mulher de alma tão gigante quanto a que lhe explodia no peito, esculpida a seu pedido por Deus.

E caminhou Newton nos passos de Cachoeiro, em uma vida que comemoraria mais um aniversário neste agosto de 2009. Se largou o ofício do cartório devido à formalidade imposta de andar engravatado, tampouco o poeta cederia à nossa terrena vontade de vê-lo aqui, agora, personificado para os parabéns ao aniversariante. Bem acomodado, Newton curte o paço celestial, cada vez mais infinito pela imensidão de sua alma.

“Carta para Deus” traz à tona, décadas depois de publicada, um questionamento perturbador sobre o valor da vida que se leva e da rotina embolada em horários, salários e conveniências. O texto, singelo em formato e despido de pretensões, desafia o leitor mais atento a mergulhar no próprio inconsciente e buscar, lá dentro, a resposta para uma pergunta latente: qual o tamanho da sua alma? Qual o tamanho da sua alma?

A provocação vai mais longe: teríamos nós, tal qual Newton, as “antenas” que captam as injustiças do mundo e nos fariam morrer de dores que não são nossas? Quem teria coragem de procurar a resposta? Tempos outros, valores outros? Acostumados a regular a camisa-de-força que deixa a alma atada, contrita, sufocada? A falsa nostalgia. Feitos do barro de Newton ou moldados no barro das circunstâncias? São as questões límpidas, repletas de significado individual, que Newton Braga resgata neste novo aniversário.

“Carta para Deus” ordena: olhos abertos para dentro de nós mesmo e atenção à lição de Fernando Pessoa: quem não vê bem uma palavra não pode ver bem uma alma.

E vida longa a Newton, mestre dos que voam alto e que pousam de vez em quando, tal qual o poeta, para matar as saudades e dar impulso ao voo dos amigos!

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Canto uma canção bonita...

Algumas canções do grupo Harmonia Enlouquece (veja post anterior):

Paradoxo
(Hamilton e Francisco S.)

"Abri os olhos, mas não via nada
Gritava, mas não me escutava
Corria, mas não me alcançava
Sorria, mas no fundo chorava
Comia, mas não me alimentava

Não via que o tempo passava
Sentia que os olhos molhavam
E assim despertava essa fera que em mim se pronunciava
É um veneno da massa encefálica que se expressava

Raiva, dor, rancor
No meu interior: grito, choro
Raiva, riso e dor
No meu interior..."


Sufoco da Vida (clique aqui para ver o clip)
(Hamilton, Maurício e Alexandre M.)

"Estou vivendo no mundo do hospital
Tomando remédio de psiquiatria mental
Haldol, Diazepam, Rohypnol, Prometazina...
Meu médico não sabe como me tornar um cara normal

Me amarram, me aplicam, me sufocam num quarto trancado
Socorro! Sou um cara normal asfixiado.
Minha mãe, meu irmão, minha tia, minha tia
Me encheram de drogas de levomepromazinna.

Ai, ai, ai que sufoco da vida
Estou cansado de tanta levomepromazina"


Xote da Dor
(Ada, Hamilton e Sidnei)


"Não é cansativo é prejudicativo
É uma cabeça sem juízo
Sem preservativo não preserva o equilíbrio
Só deixa agente um pouco sem sentido

O meu amigo me falou que eu me cuidasse
Dessa dor que um dia passa no carimbo do doutor
Eu vejo tudo como se fosse uma verdade
É uma mentira cheia de arte
E assim acaba a dor

Dor...dor...dor
E assim acaba a dor
Dor...dor...dor
No carimbo do doutor"


Para saber mais sobre o grupo musical, que nasceu do projeto “Convivendo com a Música”, do Centro Psiquiátrico Rio de Janeiro, clique no site deles.

Harmonia Enlouquece


Mergulhar no inconsciente humano com escafandros, tal qual um arqueólogo dos mares. Chegar ao fundo da mente dos esquizofrênicos e encontrar, lá, um sentido para o que a loucura manifesta em atos e pensamentos incompreensíveis aos ditos ‘ajuizados’. Este é o papel do psiquiatra, alertava Nise da Silveira, senhora das imagens.

Uma das maneiras de mergulhar de cabeça na loucura é ler “Nise da Silveira – Arqueóloga dos Mares”, um escrito de 400 páginas da lavra do jornalista Bernardo Carneiro Horta. A biografia (ou melhor: a compilação de biografemas, conforme definiu Bertold Brecht) é fruto de 12 anos de convivência de Bernardo com a dama do inconsciente, a mulher que mudou os rumos da psiquiatria mundial.

Há algumas semanas, vi, nesta Cachoeiro de Itapemirim (ES), um show da banda Harmonia Enlouquece, formada por internos do Hospital Psiquiátrico Nise da Silveira, do Rio de Janeiro. Eram 16h50min de um dia qualquer. Uma apresentação de peso, com direito a performance, letras densas, coro afinado e aclamação geral às mais de dez canções do repertório do show. Um cenário de ‘normais’ aos pés dos loucos.

Convidada para encerrar um fórum de saúde mental do sul do Espírito Santo, a banda reuniu mais de 70 pessoas no campus do centro universitário onde o evento se realizou. Um palco improvisado, obediente demais à razão para abrigar a intensidade do que significa o grupo, que viaja o país e tem, pelo menos, 50 canções de autoria própria.

“Romper esta prisão incabível”

Além de entrar em cena na novela “Caminho das Índias”, como parte do núcleo que discute a esquizofrenia à luz do método de Nise da Silveira, o Harmonia tem composições gravadas por Ana Carolina e pelo “meu amigo Arnaldo Antunes”, conforme informou ao público o vocalista Hamilton de Jesus Assunção, que também arrebenta nas composições.

Na camisa de Hamilton, a frase provocativa, instigante, desafiadora: “Romper esta prisão incabível”. “Não sei o que falar, estou muito feliz”, dizia. “Este samba eu compus para o nosso amigo Paulinho Moska”, avisava, antes de entoar um “Bate forte pandeiro, repinica na avenida”.

Impressionavam o entusiasmo da backing vocall e a compenetração dos músicos em cada nota. O grupo tem canções de acidez e crítica, de humor e amor, de rock in roll e pop. Vale ouvir (na web, oras), entre outras, “Conflito Matinal”.

O show foi dançante, mas reflexivo; simples, mas repleto de significados; curto, mas impactante. Tanto que os músicos distribuíram autógrafos, tiraram fotos, se revelaram na fotografia nebulosa do mundo dos que só conseguem enxergar a realidade paupável.

Música e psiquiatria
A banda surgiu do método inovador de Nise na psiquiatria mundial. Nise, ao fundar o Museu da Imagem e do Inconsciente, no hospital onde o Harmonia nasceu, usou como terapia um ateliê no qual os loucos expressavam o que se passava na mente de cada um deles. O trabalho caiu nas mãos de ninguém menos que Carl Gustav Jung, discípulo rompido de Freud, e mudaria radicalmente a psiquiatria convencional no mundo.

A Harmonia Enlouquece nada mais simboliza do que a verve artística e o sopro de voz dos esquizofrênicos, um método de tratamento que faz bem não só aos internos, mas à sociedade, dando lições de convivência, reintegração social e possibilidades de criação.

A banda e o diálogo dos loucos com os chamados “normais” estão impregnados da obra e do espírito de Nise da Silveira. Não é fácil vencer a luta diária com o mundo exterior e com o próprio inconsciente, sobreviver à batalha entre as criações da mente e o mundo real. Mergulhar fundo, mas encontrar o caminho de volta – inclusive pela arte de cantar, de pintar, de viver.

Neste post, fotos (minhas) do show da banda em Cachoeiro.

Meia-noite


Meia-noite

Não sei se é certo
ceder à cautela
ver a vida da janela
evitar o erro

Não sei se é certo
ver você passar na rua
e não correr, levar a rosa
mal-me-quer do meu amor

Sinto, penso, choro, calo
Na surda sozinhez

Perder a chave da minha alma
e de lá não saio nunca

A alma é triste
Dói
Silêncio, por favor